Preto e Branco

Era um daqueles dias que a gente parece acordar do lado errado da cama. O despertador tocando em algum lugar do quarto, a cabeça pesando uma tonelada e inevitavelmente aquela pontada aguda no fundo dos olhos, como um prêmio de consolação da noite anteior. E assim o dia nasce preto e branco, insípido, insosso, irreversível. Vontade de ficar ali mesmo na cama, apenas olhando para a frestinha aberta da janela do quarto, enquanto o mundo que se dane lá fora. Mas daí tudo começa. O metrô lotado, os ponteiros correndo depressa demais, os tapinhas nas costas que recebo dos que querem puxar o meu saco. E enquanto rola os “oh professor, gostei da sua aula”, “oh professor, o senhor é muito louco”, “oh professor o senhor é isso, o senhor é aquilo...” eu vou com o pensamento longe naquele email de adeus. Aquele adeus doído, cortante, perfurocontundente e dilacerante. Aquelas cinco letrinhas que podem mudar quando não o destino, pelo menos o dia de qualquer um. E junto vem aquela sensação de incapacidade, aquela sensação que deixa a gente com a impressão de ser o mais feio e burro do mundo. Com a impressão de ser... descartável. De não valer nada tudo o que foi feito, os esforços, os livros lidos para tentar ser minimamente culto, as benesses, os ouvidos atentos que ofereço. De nada parece valer. E assim, enquanto espero mais uma terça-feira terminar, cada vez mais sem pé nem cabeça, eu continuo aqui, ouvindo Alanis cantar "Uninvited" no meu ouvido, procurando um norte para me orientar.

2 comentários:

Este comentário foi removido pelo autor.

Queria tanto que tudo fosse diferente, mais infelizmente não foi, perdi vc talves com esse Adeus bobo sem pensar. Vc sabe e eu sei que no final será apenas nós!!!

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