O bilhete do Juraci - por Handerson Pessoa

Quem tudo quer, tudo perde. Assim estava escrito numa daquelas enciclopédias que meu pai tinha empilhado numa estante no quartinho de bagunças quando eu tinha dez anos de idade. Eu li esta frase pela primeira vez a dezessete anos atrás e a apenas algumas horas, cruzei com ela de novo num blog na internet. E confesso que quando me vi diante daquela frase célebre que por muito tempo me acompanhou nas idas e vindas do meu caminho quase sempre incerto, eu me lembrei do Juraci. O Juraci é outro de uma série de amigos meus, todos imaginários. Ele tinha mais ou menos uns trinta e seis ou trinta e sete anos quando aconteceu.
Então lá estava de novo o meu amigo na mesinha do jogo do bicho. Ele e o apontador já tinham se tornado amigos há muito tempo quando o Juraci começou a freqüentar a banca. Cliente assíduo, meu amigo tinha a terrível mania de apostar quase tudo que via pela frente. Dinheiro nenhum parava no seu bolso, porque voltava a apostar o dinheiro que tinha ganhado e quase sempre perdia. E ele tinha poucos bens. Os bem poucos que tinha só eram comprados depois de muita insistência da mãe, que falava para o filho tomar juízo e investir pelo menos um pouco daquele dinheiro que ele raramente ganhava nas apostas. Solteiro, quero dizer separado. Já havia passado por três casamentos, e não queria saber do quarto.
O Juraci estava eufórico. Apostou dez reais na combinação nove-cinco-zero-quatro e outros quinze reais nos mesmos números nove-cinco-zero-quatro e ganhou. Os dois bilhetes no primeiro prêmio de mesas diferentes. Ele iria levar para casa dali a pouco, nada menos do que sessenta e oito mil reais somando os dois prêmios. Mas o Juraci não tinha coragem para ir ao banco e voltar com tanto dinheiro assim (na verdade, jamais ele tinha visto tanto dinheiro junto), por isso pediu para o apontador, o seu Arlindo, para que lhe buscasse o prêmio que em troca o ele ganharia mil reais do amigo e cliente. E o seu Arlindo foi lá receber.
O problema era que o Juraci não tinha conta em banco e teve que confiar em deixar que o seu Arlindo depositasse tudo na conta dele e no dia seguinte iria ao banco abrir a própria conta e resgatar o dinheiro. Conforme pedido pelo Juraci, o seu Arlindo trouxe em dinheiro dois mil reais, em notas de cinqüenta, vinte e dez reais e entregou na mão do seu mais querido amigo.
Depois de guardar o maço com todas aquelas notas no bolso do paletó, o Juraci e o seu Arlindo saíram para comemorar com uma boa cervejada, tudo por conta do Juraci, é claro. Lá pelas tantas, o seu Arlindo foi para casa, porque tinha mulher e filhos. Os filhos já eram crescidos, todos casados e a mulher já não era tão mulher mais assim. Só estavam ainda ali juntos porque era cômodo para os dois. O Juraci também foi. Ambos para lados opostos.
As ruas pareciam dançar e mudar de lugar através dos olhos do Juraci. Só quando estava dentro do ônibus é que percebeu que tinha perdido o paletó. Perdido não, esquecido na cadeira amarela do boteco. Apertou o botão pedindo sinal e desceu correndo, feito um risco na noite. O bar estava fechado. Mas como poderia estar fechado? Ele tinha saído dali a menos de dez minutos. Eu Handerson Pessoa acho que foi o dono do boteco que pegou. Acho que ele viu o paletó, mexeu nos bolsos para ver se encontrava os documentos do dono e quando viu aquele dinheiro todo, resolveu fechar logo o bar para o caso do dono do dinheiro aparecer para reclamar. Mas o Juraci não conseguia pensar em nada. Dois mil reais tinham saído do seu bolso e estava perdido. Pelo menos ele ainda tinha sessenta e cinco mil e quinhentos.
Agora estava completamente sem dinheiro. Teve que ir embora à pé. Nove quilômetros de caminhada. Chegou tarde, e nem tirou os sapatos, deitou-se e apagou. No outro dia iria atrás do seu Arlindo para irem ao banco e transferirem o dinheiro para a nova conta.
O Juraci era torneiro mecânico e com esse dinheiro iria comprar uma pequena van e montar um negócio de venda de cachorro-quente e ser dono do próprio nariz e do próprio dinheiro. Nada de ficar pedindo mais vales, adiantamentos, empréstimos, nada.
Chegou à porta da casa do seu Arlindo e bateu. A mulher, dona Zica como era conhecida pelos vizinhos atendeu, os olhos vermelhos, e um cheiro ardido de cigarro e cachaça.
- Onde está aquele desgraçado? – ela bufou, descarregando nele um jato de saliva e um mau hálito dos diabos.
- Estou aqui para falar com ele – respondeu o Juraci.
- Ele saiu ontem a noite para fazer farra com você e não voltou mais – ela disse – mas aquele pilantra me paga quando aparecer por aqui.
- Mas...mas

As palavras queriam sair da boca amarga do Juraci mas ele não conseguiu dizer nada. Só disse que voltaria mais tarde. Quando faltavam duas horas para o fechamento do banco, lá se ia de novo o Juraci importunar a pobre senhora movida a álcool. Ela olhou para ele e resmungou com aquela cara mais rabugenta que só mesmo ela sabia fazer:
- Ele não chegou.
Meu amigo começou a ficar preocupado. Será que o seu Arlindo havia sido seqüestrado? Mas ninguém mais sabia do dinheiro. Será que tinha sido capturado por seres de outros planetas? Ele não acreditava em E.Ts. E ficou por lá mesmo matutando. Sentou-se no banquinho caiado da praça e pensou. E pensou. E pensou. Horas depois voltou desolado para casa.
Estranhamente naquele dia o boteco não abriu. Ele chamou o dono no portãozinho de grade preta que tinha do lado do bar que era onde o dono morava. Ninguém veio atender. Olhou pela escada. Ninguém. Tava na cara que o dono do bar tinha pegado o dinheiro depois de ter encontrado o paletó puído. Depois pegou seu carro e foi atrás do seu Arlindo que naquela idade não deveria andar tão rápido assim e seqüestrou o velho. A essa hora ele já deveria estar em alguma cidadezinha do interior torrando aquela grana.
Dias se passaram, junto com a esperança do Juraci. Meu amigo, desolado comprou um jornal para finalmente procurar um emprego. Tinha sido deserdado de casa. Abriu e em letras bem miudinhas viu o obituário do dono do bar. Tinha morrido de derrame. Seu nome era Pedro Gil, mas era conhecido por Pedrinho.
Agora estava mesmo tudo perdido. Olhou ao longe e viu um vermelhão ofuscante, reluzindo à luz forte do sol. Uma beleza de carro. O Juraci ali no banco da pracinha pensando na morte da bezerra não teve como não conter um uivo de susto ao ver o seu Arlindo dentro daquela beleza de carro, com aquela morena, quase trinta anos mais jovem do que ele. O velho caloteiro ergueu o polegar e um risinho traquino apareceu no seu lábio. O seu Arlindo e todo aquele miserável dinheiro naquela sacola preta no banco de trás iam pacientemente pelas ruas daquele bairro insano, rumo ao desconhecido, sem data para voltar.

1 comentários:

bom gostei desta abordagem e...
acredito q a frase do inicio se encaixou bem no fato, pq eh sempre assim, se vc ker muito algo sempre acaba perdendo, principalmene quando se confia oq se ker aos outros, acho tb q as coisas acontecem por intermedio seu. Sou meio cetico quanto tudo que envolve destino, ou seja o amigo perdeu akilo q tanto desejava (seu dinheiro) por descuido proprio!

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