Previsão do Tempo

E já que agora é oficial, o inverno chegou pra valer, derrubou todas as temperaturas e pintou o céu de cinza, fazendo os dias ficarem mais curtinhos e agradáveis. Acho que apenas para mim. Mas junto com a melhor estação do ano, vem também um lembrança ruim. A dura realidade dos que moram nas ruas. Já fazia alguns dias que eu via aquela senhora moradora de rua deitada sob uma pequena marquise na porta de um banco, na Avenida Adolfo Pinheiro aqui em São Paulo, com um cobertor velho, rasgado e puído tentando se abrigar do frio. Eu tinha vários cobertores e edredons que nem usava, e prometi a mim mesmo que traria um ou dois para aquela senhora. Minha vontade era de levar todos, mas ela não tinha como carregar aquilo durante o dia. Os que moram nas ruas carregam muito peso em seus sacos. Quando cheguei em casa naquele tempo, por volta das onze da noite, esqueci completamente daquela mulher e dormi um sono profundo. Quando amanheceu não me lembrei mais uma vez, apenas fui me lembrar quando passei outra vez na noite seguinte e a vi deitada em caixas de papelão na frente do mesmo banco, no mesmo lugar. Uma semana se passou sem que eu fizesse alguma coisa por ela. No domingo, eu me lembro bem, fez muito frio, algo em torno de quatro ou três graus e enquanto eu retirava os cobertores para poder dormir me lembrei daquela velha senhora. Encontrei uma embalagem, dobrei um cobertor e um edredom que eu não usava mais e deixei junto com as coisas que levava para o trabalho. Quando saí e ia para casa, por volta de umas dez da noite, fui apressado, ansioso para encontrar a velha e dar um pouquinho mais de conforto para ela. Ela não estava lá. “Puxa, logo agora ela resolve mudar de lugar”, pensei. Olhei ao redor e vi mais adiante, outras pessoas tentando se abrigar do frio cortante. Parei em frente a dois homens já bêbados que tiritavam de frio, perguntei sobre a mulher, ao que um olhou para o outro e a resposta demorou a acontecer. Eles não sabiam quem era e quando eu dava as informações que havia registrado rapidamente sobre ela, uma mulher no canto, pouco distante dos dois homens falou. Eu não havia percebido que tinha uma outra pessoa ali, pensei que fosse só um monte de caixas de papelão empilhadas. “Você está procurando aquela senhora? É parente dela?” ela me perguntou e eu disse que não era parente, apenas havia trazido um agasalho para ela. “Ela morreu ontem”, disse a mulher e meu coração quase parou. “Morreu de frio, mas eu posso ficar com esse cobertor?”. Eu estava petrificado demais para responder, e só me lembro de ter levantado e ir embora, deixando o pacote para trás. Há nove anos aquela imagem da velhinha deitada tentando se abrigar do frio me persegue, junto com uma sensação de culpa por não ter feito nada. Depois disso, sempre que posso, ajudo a quem precisa sem ter que esperar tanto tempo. Ajudar, às vezes custa bem menos do que você imagina. Faça sua parte, doe alguma coisa a quem precisa, e veja como é boa essa sensação. Ou então não faça nada, fique em sua casa abastada, quentinha, com tudo que precisa para viver, e conviva com a mediocridade por não ter feito nada. Não sabemos o dia de amanhã e muitas vezes as coisas mudam de lugar. Ajude a quem precisa. Doe um agasalho.

1 comentários:

Sei que realmente depende de cada um fazer um pouquinho....Alias acho q todos nós sabemos, mas a maior parte nao para pra pensar sobre isso.Admiro voce a cada dia que passa.Admiro pq acho vc corajoso, nao é qq pessoa que tem a coragem de pararalguns minutinhos da preciosa vida pra pensar no proximo, e muito mais nao tem coragem de expor os pensamentos quando os tem.
bjos e uma amiga que te ADMIRA!!!!!

Postar um comentário

Compartilhe

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More